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Mude com Elas: estudo revela como as condições habitacionais impactam a vida das jovens negras em São Paulo

Autor: Bruna Ribeiro Data da postagem: 30/07/2025 10h00

Mude com Elas: estudo revela como as condições habitacionais impactam a vida das jovens negras em São Paulo Acesse a publicação completa gratuitamente através do Observatório Mude com Elas

O lugar onde se vive influencia diretamente o acesso à educação, ao trabalho e à saúde. No caso das jovens negras, morar nas periferias de São Paulo significa, muitas vezes, lidar com múltiplas formas de exclusão. Essa é uma das conclusões do estudo “Condições habitacionais das jovens negras de São Paulo”, lançado pelo CEERT como parte do projeto Mude com Elas, que reúne três publicações sobre as desigualdades enfrentadas por meninas e mulheres negras.

Com base em dados do Censo Demográfico de 2022 e da PNAD Contínua de 2023, o estudo revela como a juventude negra, especialmente as mulheres, enfrentam precariedade habitacional, falta de infraestrutura urbana, dificuldade de mobilidade e restrições de acesso ao mercado de trabalho e à educação. Tudo isso compõe um cenário de exclusão estrutural que não é acidental. É o resultado de desigualdades históricas e do racismo institucionalizado.

“A publicação escancara que a moradia é uma expressão das desigualdades raciais e de gênero. Mas mais do que denunciar, ela é um convite para que o poder público atue com intencionalidade, de forma intersetorial e com foco em justiça habitacional”, afirma Mário Rogério, diretor do CEERT.

Julia Rosemberg, especialista em relações raciais no CEERT, reforça que “as jovens negras estão mais concentradas em regiões periféricas, com maior exposição a riscos ambientais (enchentes, deslizamentos) e carência de infraestrutura básica. Elas vivem em áreas com alto índice de autoconstrução, maior informalidade de posse e baixa oferta de serviços essenciais, além de sofrerem com intermitência no abastecimento de água”.

Quando o CEP define o futuro

De acordo com os dados compartilhados na publicação, nos setores censitários da cidade de São Paulo com alta concentração de juventude negra (mais de dois terços da população), 62,4% dos domicílios são considerados improvisados. Quase 20% não têm acesso à rede de esgoto e 19,5% não contam com coleta regular de lixo. Já em áreas majoritariamente ocupadas por jovens brancos, apenas 0,4% dos domicílios não têm acesso à rede de esgoto e 7% não têm coleta de lixo.

Essas disparidades também aparecem no tipo de moradia: em regiões onde vivem mais jovens negras, só 6% dos domicílios são apartamentos, enquanto esse número sobe para 68,2% nas áreas de maioria branca.

A pesquisa também destaca a distância dos bairros periféricos em relação aos centros urbanos, dificultando o acesso ao emprego formal e ampliando a exclusão. A desigualdade digital, evidenciada durante a pandemia, persiste. Enquanto no Itaim Bibi há 49,3 antenas de internet móvel por km², em Marsilac há apenas 0,02.

Clique aqui e acesse a publicação completa no Observatório Mude com Elas

Moradia precária, oportunidades limitadas

A precariedade habitacional afeta diretamente outras dimensões da vida. Apenas 29,7% das mulheres negras entre 25 e 29 anos possuem ensino superior completo ou incompleto, contra 53,4% das jovens brancas. Além disso, 18,6% das jovens negras estão fora da força de trabalho e da escola. O número é mais que o dobro do percentual entre jovens brancas (7,9%).

Segundo Julia Rosemberg, “a moradia precária e distante do centro urbano dificulta o acesso a empregos formais e à educação de qualidade. Jovens negras enfrentam longos deslocamentos diários, discriminação territorial (por CEP) e sobrecarga de trabalho doméstico, o que contribui para afastá-las do mercado de trabalho e da escola. Essa combinação aprofunda o ciclo de exclusão social e econômica”.

Essas mulheres também enfrentam maior taxa de desemprego, subutilização da força de trabalho e ocupações precárias. Muitas não conseguem trabalhar devido à sobrecarga com cuidados domésticos e à falta de creches e infraestrutura pública de apoio.

“O estudo mostra que políticas públicas eficazes precisam considerar o território, a interseccionalidade e a realidade concreta das jovens negras. Não basta falar em equidade sem enfrentar os gargalos estruturais que começam na moradia e se desdobram em todas as áreas da vida”, completa Mário Rogério.

Para transformar realidades, é preciso enxergá-las

Mais do que mapear desigualdades, o relatório propõe uma abordagem integrada, conectando habitação, educação, trabalho, mobilidade urbana e cuidado. A publicação pretende subsidiar a formulação de políticas públicas intersetoriais que respondam às necessidades reais da juventude negra paulistana.

Julia ressalta que “o estudo oferece subsídios detalhados para políticas integradas de habitação, transporte, trabalho e educação, considerando as especificidades das jovens negras. Ele evidencia a necessidade de ações intersetoriais e territoriais que garantam moradia digna, acesso à cidade e oportunidades de inclusão produtiva, reduzindo desigualdades históricas”.

Ao dar visibilidade à experiência das jovens negras que vivem nas margens da cidade, o CEERT reforça seu compromisso com a promoção da equidade racial e de gênero. O estudo é uma ferramenta fundamental para tomadores de decisão, pesquisadores, movimentos sociais e gestores públicos que atuam na construção de uma cidade mais justa para todas e todos.

Encontro Nacional da Rede MultiAtores MUDE com Elas

Esta publicação faz parte do projeto MUDE Com Elas, parceria entre CEERT, Ação Educativa e Terre des Hommes. O projeto organiza também o 2º Encontro Nacional da Rede MultiAtores MUDE com Elas, que mobiliza lideranças jovens negras e diversos setores da sociedade para debater alternativas para um futuro com trabalho digno. O evento aconteceu no dia 24 de julho de 2025, em Brasília, no Auditório 2 do Festival Latinidades, reunindo representantes do poder público, sociedade civil, movimentos sociais e setor privado. A data e o local reforçam a importância da capital federal como território de incidência política e celebram o 25 de Julho – Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.

Com uma programação intensa de painéis, debates, intervenções artísticas e encontros institucionais, o Encontro Nacional fortalece o protagonismo das jovens mulheres negras na construção de políticas públicas, especialmente nas áreas de cuidados, aprendizagem, justiça climática e combate às desigualdades no mundo do trabalho. A iniciativa também marca  a divulgação do Observatório MUDE com Elas e integra a agenda do Festival Latinidades, o maior encontro de mulheres negras da América Latina.

Fonte: CEERT