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“Para a mulher negra, a maternidade é vista como um fardo”, alerta jovem ativista no III Webinário do GT Observatório MUDE com Elas
Autor: Renata Silva Rocha, estagiária da Viração/Agência Jovem de Notícias Data da postagem: 28/05/2026 18h25
Mulher e criança. Foto de Lisa Marie Theck/Unsplash
Lançado durante o evento, estudo do CEERT aponta tripla penalização de raça, gênero e maternidade que bloqueia a progressão profissional de jovens mães negras.
Com o tema “O preço da maternidade para as jovens negras: trajetórias interrompidas pelas desigualdades raciais”, o III Webinário do GT Observatório foi transmitido ao vivo no canal do YouTube do projeto MUDE com Elas, da Viração Educomunicação, nesta terça-feira, dia 26 de maio de 2026, das 16h às 18h.
O Webinário aconteceu sob a mediação da Mel Oyá, jovem ativista do MUDE com Elas. Dentre os convidados, estiveram presentes nas apresentações Mário Rogério, Diretor de Diagnóstico e Indicadores do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), e Deusa Negra, jovem ativista do MUDE com Elas.
O evento também contou com a presença de Gabriel Di Pierro, psicólogo e coordenador da área da juventude da Ação Educativa; Aparecida Neri de Souza, professora, pesquisadora e membra da Sociedade Brasileira de Sociologia; Anna Souto, pesquisadora e membra do Conselho Deliberativo da Viração Educomunicação; Andréia Alves, dançarina e coordenadora do MUDE com Elas pela Ação Educativa. Participaram ainda Allexia Antuona, da Ação Educativa; Diva, pedagoga e mestranda em educação; Sandra Bueno, da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB) e Waldete Tristão, do CEERT.
Cada convidado teve vinte minutos para apresentar seus projetos e compartilhar experiências. Aos demais participantes e ao público que acompanhava a transmissão via YouTube, foi disponibilizado um espaço para perguntas e comentários, que foram respondidos em seguida por Mário e Deusa.
III Webinário do projeto MUDE com Elas reúne pesquisadores, profissionais e lideranças parceiras em discussão sobre maternidade e trabalho das jovens mães negras. Fonte: Registro de tela do encontro virtual do projeto MUDE com Elas, realizado pelo CEERT, 26/05/2026.
Tripla penalização no mercado de trabalho
O destaque do encontro foi o lançamento de um estudo temático produzido pelo CEERT para o Observatório da rede multiatores. A pesquisa foi realizada por meio do acompanhamento de 3,5 milhões de trabalhadores formais, de 14 a 29 anos, entre 2016 e 2024, através de dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS).
Os principais resultados mostram que as jovens mulheres e mães negras sofrem uma tripla opressão que perpetua a desigualdade: o racismo, o sexismo e a penalização da maternidade. “Esse estudo traz não só os desafios que as jovens negras enfrentam, como elas passam por esse mercado de trabalho quando a gente olha para elas enquanto juventude, enquanto meninas, comparado com os meninos e as meninas brancas e também com os meninos negros [...] complementamos a isto, o fato da gravidez, da penalidade da gravidez”, disse Mário Rogério, durante a apresentação. “A gente tem essa penalização também para jovens brancas, mas de uma forma muito mais intensa para jovens negras”, completou.
Segundo a pesquisa, embora as jovens negras tenham avançado na escolaridade, esse dado não se reflete no aumento salarial ou no acesso a cargos de liderança. Além disso, mães que utilizaram o auxílio-maternidade apresentaram menor progressão educacional e crescimento salarial inferior. Ou seja, os números não acompanham a realidade desse grupo e elas continuam sem receber o reconhecimento necessário no ambiente profissional. A conclusão do estudo evidencia que a qualificação acadêmica é insuficiente para romper as barreiras do racismo e do sexismo estruturais, que perpetuam um ciclo histórico de exclusão.
Vivências e a Política de Cuidados
Outro ponto alto da discussão surgiu durante a apresentação da jovem ativista Deusa Negra, que pontuou a relação da Política de Cuidados e da agenda de incidência das jovens ativistas do MUDE com Elas com os impactos da maternidade na vida laboral. Para este projeto, ela revelou que usou como referência a pesquisa acadêmica “Na Encruzilhada da Maternidade Negra” de Jade Alcântara Lôbo e Izabela Fernandes de Souza. “Esse estudo me deixou muito chocada, mas, ao mesmo tempo, eu consegui conectar com as minhas vivências como jovem ativista, porque quando a gente olha pro nosso processo de jovens, pelo menos o meu processo, ele veio através de uma mulher, né?” destacou Deusa. “A minha mãe trabalhava como auxiliar no desenvolvimento infantil, levava a mim e ao meu irmão no início do trabalho dela, então nós estudávamos na escola onde ela dava aula. Tudo isso para que a maternidade dela não lhe fosse tirada, mesmo que a sociedade colocasse vários empecilhos para nós”, relatou sobre sua experiência de vida.
A partir do material usado como apoio para seu trabalho, Deusa conclui que as mulheres negras não conseguem exercer seu trabalho com dignidade porque a sociedade impõe que a maternidade é um dano ou penalização. “A maternidade para a mulher branca é vista como um trunfo do seu relacionamento, um trunfo da sua vivência, um momento mágico e lúdico. Para a mulher negra é visto como um fardo, como um peso, como uma perda de quem você é e uma perda de como você vai ser como mãe”, desabafou.
Deusa Negra aproveitou para celebrar as conquistas já vivenciadas por ela enquanto jovem, mulher, negra, mãe e ativista, tais como: a participação na formulação da Política Nacional de Cuidados, o diálogo com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) e o Manifesto Nacional das Jovens Negras Ativistas. “Tem uma frase minha que eu gosto muito, ‘o que o estado não faz, as mulheres negras fazem. O ativismo vem como uma forma de nos cuidar e continuar articulando politicamente o tema'” citou.
Debate ampliado: Escala 6x1 e “Pobreza de Tempo”
Nas intervenções dos participantes, Gabriel Di Pierro abordou a disputa em torno da Política Nacional de Cuidados para que as jovens negras sejam contempladas como público prioritário, visto que os dados demonstram que elas são desproporcionalmente sobrecarregadas pelas tarefas de cuidado. “O Estado Brasileiro reconhece as desigualdades provocadas pelo fato de que são as mulheres que exercem prioritariamente esse cuidado [...] a Política Nacional de Cuidado hoje não priorizou as jovens negras nas conversas que a gente teve com a própria secretaria. Há outros grupos prioritários, mas não são as jovens negras consideradas. E quando a gente vai para os dados, a gente encontra que esse é o público que deveria ser priorizado” expressou.
A professora Neri de Souza reforçou a preponderância da condição de informalidade entre jovens negras ocupadas e sugeriu estudos comparativos entre dados do estudo lançado pelo CEERT e dados da PNAD para alcançar esta dimensão.
Anna Souto provocou a reflexão sobre o dilema entre CLT e PJ, destacando questões como exploração, salários baixos e “pobreza de tempo”. Anna acredita que a revisão da escala 6x1 é positiva, mas que não basta. De acordo com ela, outras questões precisam ser levadas para a política e para o Plano Nacional de Cuidados, a fim de considerar o que é importante incluir para que a juventude negra feminina consiga conciliar trabalho, estudo e vida familiar.
Andréia Alves marcou sua participação com a seguinte frase: “Todas as vezes que uma política pública é construída e ela não leva em consideração as mulheres negras, a população negra e a juventude, consequentemente fica de fora”, disse ela enquanto relembrava as vitórias que ela e Deusa compartilharam em Brasília, junto com as outras jovens negras ativistas da rede multiatores, durante a construção da Política Nacional de Cuidados.
Allexia Antuona contou que é mãe solo e que, no início da gestação, estava passando por um processo de seleção para trabalhar como auxiliar administrativa do projeto MUDE com Elas. De acordo com Allexia, ela sentiu receio de sofrer preconceito, mas deu tudo certo: foi contratada e obteve o direito à licença-maternidade.
Diva, em sua colaboração, mencionou que realiza uma pesquisa sobre “mulheres negras na universidade”. Diante disso, ela questionou a progressão de escolaridade dessas mulheres de acordo com os dados do relatório divulgado por Mário Rogério. Ele respondeu prontamente, afirmando que os diálogos em andamento nas corporações estão gerando transformações e que as empresas estão atentas.
Parcerias que transformam
O encerramento do Webinário foi consolidado por agradecimentos aos convidados, aos participantes e aos parceiros CEERT, Ação Educativa, TDH e a Viração Educomunicação — esta última responsável pela transmissão ao vivo e pela cobertura jornalística desta conferência. Foi formalizado um convite para um evento que ocorrerá no dia 08/07/2026, sobre o qual em breve haverá mais informações nas redes sociais do MUDE com Elas.
O estudo lançado neste webinário está disponível aqui no site do Observatório.
A íntegra da transmissão está disponível no YouTube.
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Redação: Renata Silva Rocha, estagiária da Viração Educomunicação/Agência Jovem de Notícias
Mentoria: Monise Berno/Viração Educomunicação
Revisão e Edição: Bárbara Batista/Viração Educomunicação